A Cabana Imaginária

Continuo pintando em um espaço pequeno, 7,6 m2. Ando assistindo vídeos de pessoas que vão passar um tempo sozinhas na floresta e aí constroem essas cabanas de madeira (bushcrafit, log cabin), algumas bem pequenas, escuras, pra quebrar o galho, abrigar do frio, da neve; outras, maiores, bem acabadas. É o cool do cool.
Nas cabanas tem de tudo: ferramentas, raquetes de andar na neve, casacos, lamparina, panelas, uma cama improvisada, um box pra fazer a fogueira… ali a pessoa tem o suficiente para sobreviver. É uma espécie de imersão total consigo mesmo, preparando a madeira da fogueira, pescando, melhorando a cabana, em paz, lendo um livro enquanto cai uma chuva lá fora.
Como eu queria passar uns dias no meio do nada, me aquecendo com fogueira, cozinhando legumes e peixes.
Meu atelier lembra essas cabanas, ou melhor, quero que lembre. As paredes são carregadas de coisas, tem o carrinho de madeira, a mesa de mdf com pincéis, óleos, solventes e tintas. Prateleiras guardam um punhado de livros e recordações em objetos de todo o tipo. Tem a mesa de boteco onde escrevo, desenho e uso de suporte pro vidro da paleta. Tem o cavalete de madeira, até o chão é de madeira. Tem jantar à luz de velas, nossas lamparinas. Tem o par de violões e o ukulele. Faltou mesmo só um cachorro amigo que não faz cocô.
Eu gosto de ficar nesse espaço. Se deixar, estico um tapete de borracha no meio do chão e passo a noite ali mesmo, como se fosse numa cabana, imaginado que lá fora corre um pequeno riacho onde posso pescar lambari. Não raro, entra um passarinho aqui dentro. No telhado da casa ao lado tem um ninho de maritacas que ficam me olhando. A lua ilumina tudo. Então consigo entrar no clima de cabana, de floresta, de coisa primitiva. É minha imaginação particular, que me leva a outro ponto. Se chove, um vinho classe-média cai bem.
A simplicidade garante prazer estendido, é sua função, não é mesmo? Me sinto tranquilo, relaxado e presente. E não me venha com esse papo de couch sobre escassez!
Tudo é belo quando sabemos imaginar e agradecer.