
Decoração e arte
Penso que sou um artista que faz pintura. Pintura. Num meio de caminho. Não faço pintura com a missão primária de agradar, isso seria uma consequência boa. Procuro imagens, gosto de desenho. Acredito que um artista deve trazer o diferente, deve trazer um “olha, nunca pensei nisso…”, por mais que seja incômodo ou dissonante.
Veja, trabalhei para a publicidade por mais de 20 anos e tudo o que fazia era agradar. Agradar o patrão, o cliente, o cliente do cliente. Retocava imagens de produtos, personagens rindo, via fotos de pessoas rindo o tempo todo, deixava tudo o mais claro e belo possível para que a pré-disposição de compra de um serviço ou produto fosse alcançada. Vinte anos vendo pessoas sorrindo com produtos de todo o tipo, dizendo que tudo é bom e vale o investimento. Tudo bem, de qualquer forma, devo muito à publicidade. Foi uma fase importante e me dei muito bem.
Eu digo isso porque sinto que é cada vez mais difícil encontrar um espectador para a arte, um espectador que procura textura na arte, que procura tempo. O que percebo é que está mais fácil encontrar clientes (não espectadores) que querem decorar uma casa, um ambiente. E para decorar, o vendedor tem a missão de agradar este cliente, combinar, não causar ruído, ser neutro. Então se cria um mercado entre arquitetos, decoradores e designers para uma arte cada vez mais decorativa, que agrada e orna e que tem potencial de venda maior. Chamo este tipo de arte de produto-artístico, contém arte, mas é produto-artístico e não precisa ser feito necessariamente por artistas.
Mondrian, com seus quadrados e retângulos, construiu um caminho até ali, hoje não há mais tempo para isso. Francis Bacon, depois de dez anos de fracasso, com toda sua brutalidade, se tornou um dos maiores do século XX. Mas e daí?
Me perco sem boia em um mundo repleto de “afeto” até em propaganda de agrotóxicos, mas que na prática continua o que sempre foi. Pessoas querem decorar e performar em jantares, artistas precisam vender para ter uma vida. Não existe colecionador pra todo mundo.
Talvez seja essa a tortura de quem faz arte: não tem um ponto a bater às 9h, mas o se adequar ao agrado de uma época.