o pensar em noite de silêncio

Escreverei sem rumo, não repare.
Não enxergo mais as coisas da forma em que eu enxergava antes. Me sinto um artista jogado no mundo, criando raízes que levam anos para crescerem e não tenho mais 20 anos, estou longe dos 20 anos. Muita coisa vai desaturando, não tento mais me encaixar, não tento ser o animador maior (apesar de às vezes falhar), não quero pertencer a mais nada, tão pouco quero felicidade. Felicidade é para os filhos. Prefiro ter paz do que felicidade. Sinto falta de terra e verde. Sinto falta de assuntos diferentes de política, saúde e psicologia.
A memória, de quem era infeliz e ainda não sabia, está nas pinturas em pedaços de cartuns antigos. São restos de um tempo lento em que observava as coisas, as pessoas, os animais, a aranha tecendo teia e capturando insetos, indo de um canto a outro, sendo adestrado a procurar a falta em todo canto, nos outros, nos amigos, namoradas, trabalho… a pintura tenta resgatar um universo muito particular, não tem explicação, é difícil definir a falta de gravidade, é difícil definir o vazio, por isso encho o espaço, como se quisesse preencher o que não deu, o que não deu tempo, o que não não vi desde criança. Acontece que vi muita coisa, explorei o quanto pude, dei o meu melhor, só não achei o que precisava, ou melhor, achei tarde, apesar de nunca ser tarde. Eu conheci tanta gente, fica a impressão de que não serviu pra muita coisa, mas ok, serviu sim, tudo foi experiência e moldou.

Existe uma urgência nesses quadros que ainda preciso domar, esperar secar pra continuar, não querer nada com as pinturas, apenas que elas estejam prontas na hora certa, simplesmente existindo e tratando meu dia a dia. Não quero mudar o mundo, o mundo não tem solução. Só quero ter o que fazer, algo que possa ser melhorado sempre, como cuidar de plantas.
O mundo hoje é o mundo hoje. O que somos sem o trabalho e sem a internet? O que sobra de você sem o seu trabalho? Quem é realmente você? O que vejo quando tenho que socializar? O que sinto? Outro dia tivemos que ficar em casa por causa de uma pandemia e as pessoas piraram, separaram, surtaram. Uma coisa coisa tão simples, ficar em casa com a família. Será que é tão difícil assim? É um sintoma. A sociedade é mais frágil do que se imagina.
Tenho uma missão, ela um dia vai acabar, me toma a identidade, o tempo, mas me torna mais presente. É intensa e no futuro terei saudade. Tento criar imagens, um universo da cabeça, imagens que não se vê, que não se conectam com o que as pessoas esperam. Uma imagem complexa, ao mesmo tempo que bela, irônica e estranha.
Olho sempre para a noite, as estrelas me fazem pensar tanto.
Gosto de fogueira.