Realismo, até certo ponto.

Realismo, até certo ponto, por favor. Depois da fotografia a arte teve a chance de sair do realismo e as coisas deslancharam para os cogumelos, graças a alguém, mas confesso que o realismo chama a atenção pela técnica, inegavelmente. Prefiro realismo fantástico, faz mais sentido pra mim.
Eu tenho que consultar meus diários pra lembrar como foram os dias de pintura desse quadro semi-realista que tem flores. Alguma coisa aconteceu que surgiram essas flores coloridas. De qualquer forma, lembro de uma frase que fiz há muito tempo: se a vida estiver um mar de rosas, confira se você não está em um velório. Desconsiderem.
Um peixe é um peixe. Meus melhores momentos da juventude foram pescando lambari em beira de rio, de cachoeira. Sempre foi minha fuga espacial, meu refúgio. A gente mata os peixinhos pescando, mas depois eles viram alimento e estamos perdoados, Zeus te tira da tabelinha do inferno e vai cuidar de outras coisas, jogar um terremoto ali e acolá. Durmo tranquilo, de barriga cheia, sonhando com o céu dos puros, mesmo não sendo vegano.
Outro bicho que me fascina além de peixes, aranhas, morcegos e polvos é a tal da coruja. Que animal foda, completo, seguro, silencioso, adaptado. Tão misteriosa, intensa… eu teria uma de estimação. Jogaria ratinhos de laboratório para alimentá-la, como se vê nos zoológicos. Falando nisso, certa vez comprei dois ratinhos de laboratório para as crianças, ali na masmorra animal do Mercado Central, faz alguns anos. Eram duas fêmeas, a Polly e a Jefferson rs. Morreram velhinhas, com quase dois anos de idade. Você se apega aos bichos, dá nome, brinca, solta na mesa… esses você já não consegue dar de alimento pra coruja, não vai. Se for ao mercado e comprar ratinhos, já sabe: joga logo na coruja, senão você se apega e a ave morre de fome, fica a dica!
Me pego a pensar em dias de chuva sem celular: por que odiamos morcegos, baratas e cobras, mas babamos num cachorro que lambe o próprio ânus? Será que é porque eles sabem expressar carência? Isso não funciona com gente. Gente carente só se fode, está na constituição federal, não há discurso de afeto que dê conta.
Chega. Realismo, até certo ponto.

Quadro “O Peixe”
Óleo sobre tela
100 x 80 cm
(não disponível)